Em entrevista a José Roberto Burnier, do SPTV2 da Rede Globo, o candidato a governador de São Paulo, Fernando Haddad, provou como a experiência como secretário de finanças da Prefeitura de São Paulo, prefeito da capital e ministro da Educação consolidam soluções concretas para problemas ignorados na atual gestão estadual.

Enquanto o adversário bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) fala em propostas abstratas, sem base financeira ou matemática, Haddad mostrou que tem os números e custos na ponta da língua, assim como a estratégia para garantir as soluções. Enquanto Haddad aponta propostas visionárias para problemas que nunca tentaram resolver, Tarcísio propõe desmontar políticas que estão dando certo, como a câmera no uniforme policial, o caráter público da Sabesp e a obrigatoriedade da vacinação infantil.

É baseado nesse contraste de ideias que Fernando Haddad pretende virar o voto no interior, onde Tarcísio guarda maioria de intenção de voto, mas 18% dos eleitores ainda não sabem em quem votar, quase dois milhões de votos que podem definir a eleição para governador. Na entrevista de 20 minutos, ele tratou de temas como geração e empregos, direitos trabalhistas, saúde, mobilidade urbana, aposentadoria e segurança pública.

Virar o voto

Haddad destacou apoios importantes que vão contribuir para agregar esse voto. Além do ex-governador Márcio França (PSB), ele conta com o apoio do governador que mais tempo esteve no Palácio dos Bandeirantes, Geraldo Alckmin (PSB), assim como oito partidos, agregando agora o PDT e o Solidariedade. Mas Haddad ressalta o apoio de todas as centrais sindicais, do movimento social, e de categorias do serviço público estadual “que foi maltratado por quatro anos, como professores, policiais militares, médicos e enfermeiros”. 

“O que ganha eleição é a melhor proposta. Desafio as pessoas a enumerar propostas do meu adversário. Ele mora a seis meses no estado, num apartamento alugado do seu cunhado. Não tem intimidade com o estado. Por isso, suas propostas são tão frágeis”.

Haddad também lembra que ganhei com larga margem na capital que governou e na região metropolitana. Isso representa 50% da população do estado, com o restante morando no interior e litoral. “As cidades pequenas favorecem meu adversário, porque as pessoas sequer sabem que ele nunca morou em São Paulo, nunca educou um filho ou teve emprego aqui, assim como residência fixa. Ele também quer fazer chegar a este eleitor suas propostas. Neste segundo turno, ele diz estar com foco nas propostas para o interior.

“Quando dizemos que Tarcisio vai vender a Sabesp, ela atende quase 400 municípios de São Paulo. Todas as experiências de privatização encareceram a conta de água. Ele vai cometer um erro contra o patrimônio dos paulistas, que foi construído durante décadas. Ele está chegando agora e quer passar nos cobres a Sabesp, prejudicando a população de baixa renda”, criticou.

Reindustrialização

Haddad pretende promover uma reindustrialização em novas bases para enfrentar a guerra fiscal que leva os empregos de São Paulo para outros estados a partir de renúncia fiscal.

Além de reduzir ICMS com compromisso de geração de empregos no estado, ele quer atuar para que o Congresso Nacional, com os 70 deputados paulistas, aprove uma reforma tributária em que o imposto seja pago no destino da mercadoria.

“Vou entrar na briga pelas indústrias, vou fazer a reforma tributária baixando o ICMS, até que o Congresso aprove. As pessoas alegam receio de pagar o imposto no destino e perder arrecadação em São Paulo, mas temos a melhor infraestrutura para atrair empresas”, ressaltou, referindo-se a vantagens logísticas de estradas, portos e aeroportos, como como capacidade instalada. 

São Paulo já produziu 40% dos calçados do país em Franca, Jaú e Birigui, número que caiu para 7,9%. Ele conta que Geraldo Alckmin baixou de 12% para 7% o ICMS, mas o atual governo tucano subiu para 18%. “Se não enfrentarmos essa guerra fiscal, vamos ficar sangrando e não vai sobrar empresa e emprego aqui”, disse.

Trabalhadores por aplicativo

Fernando Haddad foi o primeiro prefeito do Brasil a regulamentar o trabalho por aplicativos no Brasil, gerando 563 mil empregos para motoristas e mais 200 mil motoboys. “Se ano fosse a regulamentação essas pessoas estariam trabalhando em que hoje?”, lembrou, salientando que, o desafio agora é garantir direitos trabalhistas para esses profissionais.

“Fui o primeiro a taxar o Uber e regulamentar a utilização do ramal viário para fins econômicos. É justo pagar imposto e criar os milhares de empregos. Não se briga com tecnologia, se regulamenta”, disse. Para ele, é papel do governante observar as oportunidades tecnológicas e, sem preconceito, abrir as portas da geração de emprego e renda na cidade. “Todos os prefeitos Brasil afora seguiram o modelo de regulamentação de São Paulo”, afirmou.

No entanto, não é competência municipal ou estadual regular a relação de trabalho. “Mas podemos atuar junto ao Congresso para disciplinar as obrigações que cabem aos aplicativos junto aos trabalhadores”.

Saúde

O ex-ministro pretende construir 70 hospitais-dia, e reduzir o déficit de dez mil médicos no estado. A matemática para garantir essas contratações está justamente na lógica do hospital-dia, que não tem a parte de hotelaria, e realiza cirurgias de baixa ou média complexidade que não precisa de internação. 

“Nós duplicamos a capacidade de realizar cirurgias de catarata nos hospitais-dia para duas mil cirurgias por mês. Com agilidade no tratamento, o custo por procedimento cai e vc pode remunerar melhor o médico. Pra pagar bem e garantir o médico no setor público, precisa diminuir o custo por procedimento aumentando o fluxo de atendimento”, explicou.

Outra dificuldade dos hospitais públicos, que é a falta de equipamentos, tem um plano na ponta da língua. Haddad diz que vai fazer o mesmo que fez no governo federal, quando foi ministro da Educação.

“Compramos em pool, reunindo os 58 hospitais universitários do país, e centralizamos os pregões eletrônicos, comprando com 60% de desconto. O fornecedor vê o tamanho da encomenda e derruba o preço. Não dá pra comprar de um em um, senão paga mais que o dobro”.

Mobilidade Urbana

Para criar o Bilhete Único Metropolitano, Haddad terá que conciliar interesses complexos das cidades, das empresas e do estado. Mas ele conta com a experiência como subsecretário de Finanças na prefeitura de São Paulo, quando participei da criação dos Céus e do Bilhete Único, que se tornaram referência nacional. “Você saía de um ônibus de uma companhia para o de outra. Tinha que equalizar os custos e distribuir o recurso de acordo com o trajeto. Foram dois anos de estudo”, relata.

Na região metropolitana ele admite que não é fácil, “mas a tecnologia existe”. “O governo do estado vai ter que entrar com o subsídio”, declarou.

A pessoa que trabalha na capital e mora na região metropolitana chega a pagar R$ 15 por dia. Reduzir este custo, na opinião dele, é uma forma de ajudar o próprio comércio, porque aumenta a renda do trabalhador.

Na cidade onde o transporte é gratuito, ressalta ele, o usuário só paga se sair do município. Mas ele pretende calcular o subsídio gradualmente, com o critério de cidade onde tem menos emprego em número de trabalhadores (as antigas cidades-dormitório). A ideia é começar pelo município onde o trânsito de trabalhadores para a capital é maior. A medida não vai atingir apenas o entorno da capital, mas também em Campinas, Santos, Sorocaba, São José dos Campos, etc.

Previdência estadual

Fernando Haddad já defendeu que vai rever a reforma da Previdência. No entanto, ele esclareceu que prometeu rever o que chama de confisco das aposentadorias. A pessoa já está aposentada e só contribuía a partir do teto da Previdência. “O Dória passou a cobrar do aposentado, por decreto, entre um salário mínimo e o teto da Previdência. Isso é ilegal e está judicializado”, afirmou.

Ele se indigna pelo aposentado que contribuiu por 30 anos passar a ter um desconto no contracheque, mesmo quando ganha apenas um salário mínimo. “Isso vai virar um enorme precatório e vai comprometer as finanças futuras. Vamos rever o confisco e a justiça vai decidir o que tem que pagar”, disse.

Segurança Pública

O déficit de policiais é de 15 mil trabalhadores. Haddad pretende repor esse efetivo ao mesmo tempo que reestrutura a carreira do policial. “A partir do momento que sentarmos com a categoria para fazer isso, vamos ter que repactuar metas de redução de criminalidade”, sinalizou.

Ele critica o governo atual por deixar de contratar, acreditando que os prefeitos fariam isso por meio das guardas municipais. Com isso, o governador desonerou o cofre estadual e onerou o cofre municipal. “Isso não é uma boa política”.

Um terço de roubos e estelionatos ocorrem no estado de São Paulo, conforme explica ele. “É preciso combinar policiamento ostensivo com investigação para chegar na matriz da quadrilha que organiza esse crime”, defendeu.

Apesar de medidas como bloqueio de celulares, transferência de chefes de quadrilha para presídios de segurança máxima, endurecimento de penas e regras nos presídios, os crimes envolvendo tecnologia continuam em alta.

Para Haddad, se prende muito e mal, sem dar consequência ao flagrante. O jovem que é preso roubando vai ser substituído por outro aliciado. Para ele, o que precisa pegar é o receptador de carga roubada. “Esse é o ninho que precisa ser desbaratado. Precisa de inteligência, tecnologia e tempo apara a investigação. Isso está faltando”.

Ele terminou criticando como a pior proposta, apresentada por Tarcísio de Freitas, de separar as polícias em duas secretarias. “Temos que integrar cada vez mais as duas polícias”, afirmou.

Por Cezar Xavier